sexta-feira, 26 de junho de 2009

Stanislavski sobre "perejivanie" e "voploshtchenie"

Meu primeiro post, testando o blog, falava sobre o distanciamento necessário para compreendermos nossa "vivência" [perejivanie]. E a vivência, ou experiência, à qual Vigotski se referia era a do ator. No texto "Sobre o problema da psicologia do 'trabalho criativo' [tvortchestvo] do ator" (1932), Vigotski fala sobre emoções e vivências, dialogando tanto com Diderot, para quem o ator não precisa sentir a mesma emoção que deve suscitar no público, quanto com Stanislavski, cujo sistema de formação de atores trabalha as emoções cênicas de modo distinto. Para Vigotski, as emoções que o ator "realmente sente" e aquelas que "representa estar sentindo" entram ambas num complexo sistêmico de ordem superior, cuja compreensão remete ao caráter histórico das emoções, só acessível mediante uma "psicologia concreta" ou "nova psicologia".

Mas se Vigotski escreveu seu texto sobre o trabalho do ator em 1932, Stanislavski viveu até 1938. Neste ano foi publicada sua obra "O trabalho do ator sobre si", organizada em duas partes bem longas. A primeira intitulada: "O trabalho sobre si no processo criador da perejivanie" (experiência, vivência, "experiencing"). A segunda intitulada: "O trabalho sobre si no processo criativo da voploshtchenie" (personificação, encarnação, "embodiment"). Considero relevante o fato dele ter trabalhado com tal par, por conta da apresentação de um "duplo" para "perejivanie", distinto e complementar. Surge assim, uma possibilidade de ver algo adicional sobre tal conceito, desde a contribuição da dramaturgia, da arte teatral. Consultando a "parte 2" do livro na versão russa on-line das Obras Escolhidas de Stanislavski, encontra-se, no anexo I (Material adicional para o terceiro tomo), em seu subitem 5 (esquema do "sistema"), um diagrama bastante impactante, que podemos ver logo abaixo.

Para uma tradução literal veja a próxima figura

Para visualizar melhor clique sobre a figura

Como o livro de Stanislavski data de seis anos após o artigo de Vigotski, pode-se supor que o psicólogo não tenha chegado a conhecer toda a organização que o dramaturgo deu ao tema nesta obra. Para o desenvolvimento da pesquisa nesse campo conceitual, seria interessante saber até que ponto Stanislavski pôde tratar o tema das "vivências cênicas" para além da polarização entre "o ator deve sentir o que representa" e "o ator não precisa senti-lo e/ou representa melhor quando não sente". Ao invés de apenas buscarmos "aplicar a psicologia à arte", caminho já muito comum no psicologismo dominante, estamos diante de um desafio distinto. Autores ligados ao teatro, à literatura, ao cinema, é que se apresentam como fontes para renovação dos recursos simbólicos da psicologia. Já disse Politzer: “A arte deve imitar a vida? A psicologia para fugir a uma tradição milenar, e retornar à vida, deveria imitar o teatro”.

Achilles
Umuarama, 26 de junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Número de obras de Vigotski: de 186 para 282

Na conhecida coletânea “A formação social da mente”, editada pela Martins Fontes já desde 1984 (traduzida da edição americana “Mind in Society”), consta, ao final, uma lista dos trabalhos produzidos por Vigotski, inclusive os até então não publicados. Nesta lista podemos contar 180 títulos entre 1915 e 1935. Mais 3 trabalhos de vários anos e ainda 3 trabalhos publicados originalmente em inglês que não repetiriam os títulos anteriormente publicados em russo (os mesmos podem ter sido escritos diretamente em língua estrangeira pelo próprio Vigotski, embora isso não seja especificado nesta lista). Seria assim um total de 186 trabalhos. O que já não se mostrava pouco.


Contudo, uma lista mais bem atualizada foi compilada pela historiadora Tamara M. Lifanova, colaboradora de uma das filhas de Vigotski, Guita L. Vigodskaia. Nesta lista ampliada contam-se 263 títulos de 1915 a 1935. Mais 12 trabalhos de vários anos, 79 cartas a 13 destinatários diferentes, os mesmos 3 trabalhos aparentemente originais em inglês, mais outro nesta língua publicado com A. R. Luria. Além de 1 título em alemão, outro em espanhol e outro em francês. Todos estes ainda no período em que Vigotski estava vivo. São então 263 + 12 + 7 = 282 títulos além das cartas.

Mesmo assim, há indícios de que ainda não seja tudo. Pois alguns manuscritos de posse apenas da família podem não estar sendo computados, embora apareçam no anúncio da nova edição russa das obras de Vigotski em 15 volumes. É o caso do caderno das conversações clínicas de Vigotski com seus pacientes na clínica de Don e de anotações dele à Ética de Espinosa, entre outros materiais inéditos.

Comecei a trabalhar na tradução dos títulos da lista de Lifanova, diretamente do russo. E devo cotejar com as opções feitas na edição americana do Tomo 6 das “Obras Escolhidas”. A edição das mesmas obras em espanhol pela editora Vysor, de Madrid, ainda não apresentou o volume 6. E assim não tive acesso a tal lista em língua latina. Sabe-se que em Cuba foram publicados os seis tomos, mas não se trata de um material de tão fácil aquisição ou consulta quanto o de Madrid.

Desse modo, penso ser interessante termos esta referência também em português. O que me dizem? Assim que eu tenha algum progresso informarei aqui mesmo - editando esta postagem e disponibilizando os links necessários.

Achilles,
Umuarama, 25 de junho de 2009.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vigotski citando um latino-americano

"Que significa descobrir o significado? Na linguagem
devemos distinguir os aspectos semiótico e fásico; os
liga a relação de unidade e não de identidade. A palavra
não é simplesmente o substituto da coisa. Por exemplo,
os experimentos de Ingenieros (6) com os 'significados
presenciais'" (Vigotski, 1991, p. 124 - itálico na fonte)

Segundo a nota da revisão russa, reproduzida na espanhola a partir da qual fazemos a citação aqui, trata-se de "José Ingenieros (1877-1925). Professor de Psicologia Experimental na Universidade de Buenos Aires. Um dos introdutores da psicologia experimental e comparada na Argentina (Nota do revisor NRR)" (In Vigotski, 1991, p. 132). Ingenieros foi um destacado estudioso ítalo-argentino, militante socialista, entusiasta da reforma universitária, que escreveu diversos trabalhos sobre saúde mental, psicologia social, psicologia experimental, psicologia geral e história do pensamento argentino, entre outros.


Um destaque para essa ligação entre Vigotski e Ingenieros foi feito recentemente na comunidade Psyhistorik do site LiveJournal, por colegas psicólogos russos. Após levantar-se alguns títulos das obras do autor, dentre as quais situam-se alguns como "O homem medíocre", "Para uma moral sem dogmas", "A psicopatologia na arte", "A loucura na Argentina" sugeriu-se que o título mais provável para encontrar-se a discussão sobre os "significados presenciais" fosse "Princípios de psicologia biológica" de 1913 - que teve uma edição na Rússia em 1925, a qual Vigotski poderia ter lido. Com alguma sorte e sem dispender muitos recursos foi possível encontrar um exemplar original desse livro num sebo no Brasil.

Princípios de Psicología Biológica - 1913

Veremos na sequencia o que mais pode derivar dessa conexão russo-latinoamericana. Do meu ponto de vista, as reflexões de cunho moral e sobre as relações entre caráter e a vida coletiva, embora não sejam um tema original deste autor, não deixam de ser de interesse por elas mesmas, com Vigotski ou não, no sentido da história da psicologia e do espírito da época, início do século XX, em torno de tal problemática. Mas este será um tópico à parte.

Achilles
Umuarama, madrugada de 02 de junho de 2009

Referência:

VIGOTSKI, L.S. (1991) El problema de la conciencia. In: ______. Obras escogidas - tomo I. Madrid: Vysor Aprendizaje y Ministerio de Cultura y Ciencia.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Grupos de trabalho de Vigotski 1924-1934

Este é um breve diagrama referente ao período de Vigotski trabalhando propriamente com a psicologia, ou seja de 1924 a 1934. Tem-se a uma noção um tanto vaga e às vezes romântica sobre a composição da "troika" (tríade), Vigotski, Luria e Leontiev, a partir de 1924. Contudo, ela não sempre se manteve como tal, nem mesmo existiu durante todo o período de produção de Vigotski em psicologia. Como se vê abaixo houve ampliação do grupo e depois dissolução, com os componentes rumando para organizar mesmo suas próprias orientações. As informações que constam nessa tabela foram obtidas a partir dos trabalhos de Valsiner (Psicologia do desenvolvimento na URSS) e Valsiner e Van der Veer (Compreendendo Vigotski: uma busca por síntese). Esta postagem é apenas um teste para avaliar o modelo desse blog.


(clique na figura para ampliar)

Esse diagrama foi desenhado pela primeira vez por volta de 1992-1993. E o desenho atual é uma recriação por sobre uma versão impressa cujo arquivo digital não existe mais.

Achilles.
Umuarama, 05 de março de 2009.

"Perejivanie" e distanciamento em Vigotski

“No intuito de explicar e compreender
a experiência [perejivanie], é necessário
ir além dos seus limites; é necessário
esquecê-la por um minuto e mover-se
para longe dela”
— L.S. Vigotski (1932/1999)

Eu havia deixado esta citação aqui de modo despretensioso, e o nosso colega Leandro fez a excelente pergunta: “de qual experiência Vigotski está falando nessa citação?”. Penso que toda palavra sempre tenha muitos sentidos, para além do seu caráter literal ou de sua circunscrição numa dada situação. Contudo, nesse contexto penso ser correto dizer que seja da “experiência do ator” que ele fala, entendida como um processo psíquico único, singular, perpassado por suas emoções no momento de atuar e, atuando, proporcionar ao expectador emoções que ele próprio não está necessariamente sentindo. Vigotski está discutindo esse paradoxo, identificado por Diderot, o chamado “paradoxo do ator”: ele provoca/proporciona emoções que não necessariamente sente. Mas como é a experiência do ator no ato de proporcionar emoções ao expectador? Ele não tem emoção alguma? Se ele as têm como lida com elas? E o psicólogo ao tentar entender esse processo, como pode proceder? Vivendo exatamente a mesma emoção, pensamento e experiência do ator o psicólogo da arte poderia compreendê-la melhor, ou precisaria distanciar-se dela para fazê-lo? O próprio ator para “explicar e compreender” sua experiência, poderia fazê-lo imerso nela? Creio que seja nesse contexto que podemos posicionar a citação acima. A necessidade de distanciamento para dar conta da experiência vivida.

Entretanto cabe lembrar no lugar de qual palavra russa está aqui “experiência”. Essa é uma tradução de um trecho em inglês, que figura no tomo 6 das obras escolhidas de Vigotski (1932/1999). Em inglês está “experience”, mas como vocês vêem, eu coloquei uma palavra em russo entre colchetes, tal como figura no texto: “perejivanie” (переживание). Essa é uma palavra de difícil tradução. Mas há várias opções possíveis, como “experiência”, “experiência emocional”, “experiência vital”, “emoção”, “provação”, “aflição” e “vivência”. Eu tenho optado por “vivência”, tal como é traduzido nas obras escolhidas na edição espanhola (Madrid), apenas pelo fato de que “perejivanie” é um substantivo relativo ao verbo “jivat”, uma forma arcaica para “viver”. “Vivência” é uma palavra em português que se aproxima do “ato de viver”, “a experiência vital”, “o processo de estar vivendo”. Certamente não é uma tradução perfeita, mas provisoriamente ficamos com essa, confiando na capacidade do leitor de compreender o contexto e em seu potencial crítico em articular um contexto particular ainda com outros, procurando abordar os enunciados em suas relações intertextuais.

A palavra “perejivanie”, além de ser vista como relativa a algo que só pode ser compreendido com certo distanciamento, neste texto sobre o trabalho criativo do ator, é ademais um constructo metodológico importante, como podemos notar em um texto que registra uma conferência de Vigotski de 1933-34, chamado “A crise dos sete anos”. Ali ele diz: “podemos assinalar (...) a unidade para o estudo da personalidade e o meio. Em psicologia e psicopatologia essa unidade se chama vivência. A vivência da criança é a aquela simples unidade sobre a qual é difícil dizer se representa a influência do meio sobre a criança ou uma peculiaridade da própria criança. A vivência constitui a unidade da personalidade e do entorno tal como figura no desenvolvimento. Portanto, no desenvolvimento, a unidade dos elementos pessoais e ambientais se realiza em uma série de diversas vivências da criança. A vivência deve ser entendida como a relação interior da criança como ser humano, com um ou outro momento da realidade. Toda a vivência é vivência de algo. Não há vivências sem motivo, como não há ato consciente que não seja ato de consciência de algo. Entretanto, cada vivência é pessoal. A teoria moderna introduz a vivência como unidade da consciência, isto é, como unidade na qual as possibilidades básicas da consciência figuram como tais, enquanto que na atenção, no pensamento não se dá tal relação. A atenção não é uma unidade da consciência, senão um elemento da consciência, carente de outros elementos, com a particularidade de que a integridade da consciência como tal desaparece. A verdadeira unidade dinâmica da consciência, unidade plena que constitui a base da consciência é a vivência.” (VIGOTSKI, 1933-34/2006, P. 383).

REFERÊNCIAS

VIGOTSKI, L. S. (1932/1999) On the problem of the psychology of the actor’s creative work.. In: ______. The collected works of L. S. Vygotsky. Vol. 6. Scientific legacy. Edited by Robert W. Rieber.

VIGOTSKI, L. S. (1933-34/2006) La crisis de los siete años. In: ______. Obras escogidas. Tomo IV. Madrid: Visor y A. Machado Libros.