terça-feira, 8 de dezembro de 2009

FREUD NA TEORIA DAS EMOÇÕES DE VIGOTSKI?

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FREUD NA TEORIA DAS EMOÇÕES DE VIGOTSKI?
algumas dúvidas quanto a tal possibilidade
Achilles Delari Junior


“A psicanálise mostra suas tendências
profundamente estáticas e não dinâmicas,
conservadoras, anti-dialéticas e anti-históricas.”
— L. S. Vigotski (1927/1991, p. 299)


CONTEXTO DA INDAGAÇÃO

Este texto é uma versão ampliada de uma postagem que fiz na lista XMCA (eXtended Mind, Culture and Activity) do LCHC (Laboratory of Comparative Human Cognition), na madrugada do dia 02 de dezembro de 2009. Tal postagem referia-se a que, num tópico “sobre emoções” (about emotions), fora feita menção à idéia de Vigotski ser simpático a Freud, por conta de sua abordagem “histórica” ao ser humano. O que talvez se pautasse numa noção de “história” como percurso cíclico da vida mental individual, no qual o ser humano passa por diferentes fases psicossexuais e/ou as repete – na visão do psicanalista. Contudo, como disse naquele fórum, tenho algumas dúvidas iniciais quanto ao papel que Freud poderia ocupar na “teoria das emoções” de Vigotski. As quais desejo partilhar com o leitor, solicitando sua réplica crítica para aprofundarmos o tema. Tais dúvidas, são reflexo e refração da minha própria trajetória de estudo dos dois autores, um deles (Freud) bastante lido e ensinado no curso de graduação em psicologia, em várias disciplinas obrigatórias, e outro (Vigotski) apropriado sempre parcialmente num percurso autodidata à revelia das instituições de ensino. O que, certamente, evidencia meus limites pessoais e históricos na formulação do problema e dá espaço às correções necessárias por parte do leitor com maior domínio da teoria histórico-cultural. Sendo assim, exporei primeiro os motivos dessa minha “desconfiança”, levantando indícios de profunda oposição teórica e metodológica de Vigotski frente a Freud (parte I). Num segundo momento, retomarei algumas áreas de contato entre os dois autores, as quais não mostram haver, mesmo assim, qualquer acordo metodológico central entre eles (parte II). Por último, retomarei posições de dois diferentes momentos históricos do próprio Vigotski quanto ao que ele mesmo pensava sobre ser ou não “histórica” a abordagem psicanalítica (parte III).

Não é impossível um diálogo póstumo entre estes autores que eles não tenham sugerido ou almejado em vida. Ligações inusitadas são possíveis e desejáveis, já que os significa-dos sociais para o que disseram não poderiam estar todos sob seu próprio domínio. A ré-plica social para suas palavras repercute no “grande tempo” e em diálogo elas nunca mor-rem. Mas vale lembrar, em primeiro lugar, que diálogo não é algo que façamos apenas quando desejamos concordar ou receber aprovação. Vigotski, por exemplo, mostra-se sempre atento aos seus oponentes intelectuais, bem mais do que estes à sua obra, mas nis-so, via de regra, procede por antítese e com ironia – seja “socrática” ou não. Em segundo lugar, já vêm sendo propostos vários “diálogos dos mortos” , críticos ou ingênuos, entre Vigotski e outros autores, desde os mais “questionados” (como entre Vigotski e Piaget) aos mais “consensuais” (como entre Vigotski e Bakhtin) – não havendo o que opor a tal prática. Seja como for, a questão aqui não é determinar, a qualquer custo, se a metafísica de Freud tem, objetivamente, algo a acrescentar à dialética de Vigotski ou não. Partamos do princípio de que se o desejo do pesquisador for criar convergências, nas condições históricas das ciências humanas hoje, sempre poderá realizá-lo, num quadro teórico auto-suficiente. Todavia, não me proponho a dar contraprova da possibilidade ou legitimidade de fusões ecléticas, mas apenas a explorar algo do que o psicólogo bielo-russo pensava sobre elas. Desta maneira, sendo o próprio pensamento vigotskiano o objeto de nossa cu-riosidade, o leitor não encontrará aqui uma revisão às obras de Freud, a qual pode obter em abundantes fontes de autoria de seus seguidores e/ou admiradores – em sua grande maioria, totalmente alheios às contribuições de Vigotski e do materialismo dialético.

Como disse a psicóloga social Lucília Reboredo: “para haver diálogo é preciso que haja diferença”. Acentuar diferenças é o modo que encontro aqui para evitar certa tendência a omitirmos nosso posicionamento ideológico no debate entre posturas epistemológicas dis-tintas, para não dizer antagônicas, já comum no eclético e conservador cenário dito pós-moderno – noite política e cultural, na qual todos os discursos são pardos.

PARTE I - ALGUMAS CENTRAIS POSIÇÕES ANTAGÔNICAS DE VIGOTSKI COM RELAÇÃO A FREUD
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1 - Em 1931-33 – "Teoria das emoções – um estudo histórico-psicológico”
(1.1) no capítulo 18, como um “discípulo involuntário de Descartes”;
(1.2) no capítulo 19, numa alusão alegórica a um chiste de uma paciente do primeiro.

2 - Em 1927 - "O significado histórico da crise da psicologia”
(2.1) a inconsistência de se tratar a obra de Freud como “monista” e/ou “materialista”;
(2.2) a presença de uma forte adesão de Freud a concepções metafísicas;
(2.3) a presença de um destacado reducionismo da psicanálise também no campo prático.

3 - Em 1925 – na “Psicologia da arte”
(3.1) o pan-sexualismo em psicanálise;
(3.2) o infantilismo em psicanálise;
(3.3) a interpretação energética em psicanálise.


PARTE II - ALGUMAS PERIFÉRICAS POSIÇÕES FAVORÁVEIS DE VIGOTSKI COM RELAÇÃO A FREUD
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PARTE III - A POSIÇÃO EXPLÍCITA DE VIGOTSKI QUANTO AO PENSAMENTO A-HISTÓRICO DE FREUD
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REFERÊNCIAS

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Achilles.
Umuarama, 09 de dezembro de 2009
Vigotski e a prtica do psiclogo

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Stanislavski sobre "perejivanie" e "voploshtchenie"

Meu primeiro post, testando o blog, falava sobre o distanciamento necessário para compreendermos nossa "vivência" [perejivanie]. E a vivência, ou experiência, à qual Vigotski se referia era a do ator. No texto "Sobre o problema da psicologia do 'trabalho criativo' [tvortchestvo] do ator" (1932), Vigotski fala sobre emoções e vivências, dialogando tanto com Diderot, para quem o ator não precisa sentir a mesma emoção que deve suscitar no público, quanto com Stanislavski, cujo sistema de formação de atores trabalha as emoções cênicas de modo distinto. Para Vigotski, as emoções que o ator "realmente sente" e aquelas que "representa estar sentindo" entram ambas num complexo sistêmico de ordem superior, cuja compreensão remete ao caráter histórico das emoções, só acessível mediante uma "psicologia concreta" ou "nova psicologia".

Mas se Vigotski escreveu seu texto sobre o trabalho do ator em 1932, Stanislavski viveu até 1938. Neste ano foi publicada sua obra "O trabalho do ator sobre si", organizada em duas partes bem longas. A primeira intitulada: "O trabalho sobre si no processo criador da perejivanie" (experiência, vivência, "experiencing"). A segunda intitulada: "O trabalho sobre si no processo criativo da voploshtchenie" (personificação, encarnação, "embodiment"). Considero relevante o fato dele ter trabalhado com tal par, por conta da apresentação de um "duplo" para "perejivanie", distinto e complementar. Surge assim, uma possibilidade de ver algo adicional sobre tal conceito, desde a contribuição da dramaturgia, da arte teatral. Consultando a "parte 2" do livro na versão russa on-line das Obras Escolhidas de Stanislavski, encontra-se, no anexo I (Material adicional para o terceiro tomo), em seu subitem 5 (esquema do "sistema"), um diagrama bastante impactante, que podemos ver logo abaixo.

Para uma tradução literal veja a próxima figura

Para visualizar melhor clique sobre a figura

Como o livro de Stanislavski data de seis anos após o artigo de Vigotski, pode-se supor que o psicólogo não tenha chegado a conhecer toda a organização que o dramaturgo deu ao tema nesta obra. Para o desenvolvimento da pesquisa nesse campo conceitual, seria interessante saber até que ponto Stanislavski pôde tratar o tema das "vivências cênicas" para além da polarização entre "o ator deve sentir o que representa" e "o ator não precisa senti-lo e/ou representa melhor quando não sente". Ao invés de apenas buscarmos "aplicar a psicologia à arte", caminho já muito comum no psicologismo dominante, estamos diante de um desafio distinto. Autores ligados ao teatro, à literatura, ao cinema, é que se apresentam como fontes para renovação dos recursos simbólicos da psicologia. Já disse Politzer: “A arte deve imitar a vida? A psicologia para fugir a uma tradição milenar, e retornar à vida, deveria imitar o teatro”.

Achilles
Umuarama, 26 de junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Número de obras de Vigotski: de 186 para 282

Na conhecida coletânea “A formação social da mente”, editada pela Martins Fontes já desde 1984 (traduzida da edição americana “Mind in Society”), consta, ao final, uma lista dos trabalhos produzidos por Vigotski, inclusive os até então não publicados. Nesta lista podemos contar 180 títulos entre 1915 e 1935. Mais 3 trabalhos de vários anos e ainda 3 trabalhos publicados originalmente em inglês que não repetiriam os títulos anteriormente publicados em russo (os mesmos podem ter sido escritos diretamente em língua estrangeira pelo próprio Vigotski, embora isso não seja especificado nesta lista). Seria assim um total de 186 trabalhos. O que já não se mostrava pouco.


Contudo, uma lista mais bem atualizada foi compilada pela historiadora Tamara M. Lifanova, colaboradora de uma das filhas de Vigotski, Guita L. Vigodskaia. Nesta lista ampliada contam-se 263 títulos de 1915 a 1935. Mais 12 trabalhos de vários anos, 79 cartas a 13 destinatários diferentes, os mesmos 3 trabalhos aparentemente originais em inglês, mais outro nesta língua publicado com A. R. Luria. Além de 1 título em alemão, outro em espanhol e outro em francês. Todos estes ainda no período em que Vigotski estava vivo. São então 263 + 12 + 7 = 282 títulos além das cartas.

Mesmo assim, há indícios de que ainda não seja tudo. Pois alguns manuscritos de posse apenas da família podem não estar sendo computados, embora apareçam no anúncio da nova edição russa das obras de Vigotski em 15 volumes. É o caso do caderno das conversações clínicas de Vigotski com seus pacientes na clínica de Don e de anotações dele à Ética de Espinosa, entre outros materiais inéditos.

Comecei a trabalhar na tradução dos títulos da lista de Lifanova, diretamente do russo. E devo cotejar com as opções feitas na edição americana do Tomo 6 das “Obras Escolhidas”. A edição das mesmas obras em espanhol pela editora Vysor, de Madrid, ainda não apresentou o volume 6. E assim não tive acesso a tal lista em língua latina. Sabe-se que em Cuba foram publicados os seis tomos, mas não se trata de um material de tão fácil aquisição ou consulta quanto o de Madrid.

Desse modo, penso ser interessante termos esta referência também em português. O que me dizem? Assim que eu tenha algum progresso informarei aqui mesmo - editando esta postagem e disponibilizando os links necessários.

Achilles,
Umuarama, 25 de junho de 2009.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vigotski citando um latino-americano

"Que significa descobrir o significado? Na linguagem
devemos distinguir os aspectos semiótico e fásico; os
liga a relação de unidade e não de identidade. A palavra
não é simplesmente o substituto da coisa. Por exemplo,
os experimentos de Ingenieros (6) com os 'significados
presenciais'" (Vigotski, 1991, p. 124 - itálico na fonte)

Segundo a nota da revisão russa, reproduzida na espanhola a partir da qual fazemos a citação aqui, trata-se de "José Ingenieros (1877-1925). Professor de Psicologia Experimental na Universidade de Buenos Aires. Um dos introdutores da psicologia experimental e comparada na Argentina (Nota do revisor NRR)" (In Vigotski, 1991, p. 132). Ingenieros foi um destacado estudioso ítalo-argentino, militante socialista, entusiasta da reforma universitária, que escreveu diversos trabalhos sobre saúde mental, psicologia social, psicologia experimental, psicologia geral e história do pensamento argentino, entre outros.


Um destaque para essa ligação entre Vigotski e Ingenieros foi feito recentemente na comunidade Psyhistorik do site LiveJournal, por colegas psicólogos russos. Após levantar-se alguns títulos das obras do autor, dentre as quais situam-se alguns como "O homem medíocre", "Para uma moral sem dogmas", "A psicopatologia na arte", "A loucura na Argentina" sugeriu-se que o título mais provável para encontrar-se a discussão sobre os "significados presenciais" fosse "Princípios de psicologia biológica" de 1913 - que teve uma edição na Rússia em 1925, a qual Vigotski poderia ter lido. Com alguma sorte e sem dispender muitos recursos foi possível encontrar um exemplar original desse livro num sebo no Brasil.

Princípios de Psicología Biológica - 1913

Veremos na sequencia o que mais pode derivar dessa conexão russo-latinoamericana. Do meu ponto de vista, as reflexões de cunho moral e sobre as relações entre caráter e a vida coletiva, embora não sejam um tema original deste autor, não deixam de ser de interesse por elas mesmas, com Vigotski ou não, no sentido da história da psicologia e do espírito da época, início do século XX, em torno de tal problemática. Mas este será um tópico à parte.

Achilles
Umuarama, madrugada de 02 de junho de 2009

Referência:

VIGOTSKI, L.S. (1991) El problema de la conciencia. In: ______. Obras escogidas - tomo I. Madrid: Vysor Aprendizaje y Ministerio de Cultura y Ciencia.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Grupos de trabalho de Vigotski 1924-1934

Este é um breve diagrama referente ao período de Vigotski trabalhando propriamente com a psicologia, ou seja de 1924 a 1934. Tem-se a uma noção um tanto vaga e às vezes romântica sobre a composição da "troika" (tríade), Vigotski, Luria e Leontiev, a partir de 1924. Contudo, ela não sempre se manteve como tal, nem mesmo existiu durante todo o período de produção de Vigotski em psicologia. Como se vê abaixo houve ampliação do grupo e depois dissolução, com os componentes rumando para organizar mesmo suas próprias orientações. As informações que constam nessa tabela foram obtidas a partir dos trabalhos de Valsiner (Psicologia do desenvolvimento na URSS) e Valsiner e Van der Veer (Compreendendo Vigotski: uma busca por síntese). Esta postagem é apenas um teste para avaliar o modelo desse blog.


(clique na figura para ampliar)

Esse diagrama foi desenhado pela primeira vez por volta de 1992-1993. E o desenho atual é uma recriação por sobre uma versão impressa cujo arquivo digital não existe mais.

Achilles.
Umuarama, 05 de março de 2009.