Meu primeiro post, testando o blog, falava sobre o distanciamento necessário para compreendermos nossa "vivência" [perejivanie]. E a vivência, ou experiência, à qual Vigotski se referia era a do ator. No texto "Sobre o problema da psicologia do 'trabalho criativo' [tvortchestvo] do ator" (1932), Vigotski fala sobre emoções e vivências, dialogando tanto com Diderot, para quem o ator não precisa sentir a mesma emoção que deve suscitar no público, quanto com Stanislavski, cujo sistema de formação de atores trabalha as emoções cênicas de modo distinto. Para Vigotski, as emoções que o ator "realmente sente" e aquelas que "representa estar sentindo" entram ambas num complexo sistêmico de ordem superior, cuja compreensão remete ao caráter histórico das emoções, só acessível mediante uma "psicologia concreta" ou "nova psicologia".
Mas se Vigotski escreveu seu texto sobre o trabalho do ator em 1932, Stanislavski viveu até 1938. Neste ano foi publicada sua obra "O trabalho do ator sobre si", organizada em duas partes bem longas. A primeira intitulada: "O trabalho sobre si no processo criador da perejivanie" (experiência, vivência, "experiencing"). A segunda intitulada: "O trabalho sobre si no processo criativo da voploshtchenie" (personificação, encarnação, "embodiment"). Considero relevante o fato dele ter trabalhado com tal par, por conta da apresentação de um "duplo" para "perejivanie", distinto e complementar. Surge assim, uma possibilidade de ver algo adicional sobre tal conceito, desde a contribuição da dramaturgia, da arte teatral. Consultando a "parte 2" do livro na versão russa on-line das Obras Escolhidas de Stanislavski, encontra-se, no anexo I (Material adicional para o terceiro tomo), em seu subitem 5 (esquema do "sistema"), um diagrama bastante impactante, que podemos ver logo abaixo.
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Como o livro de Stanislavski data de seis anos após o artigo de Vigotski, pode-se supor que o psicólogo não tenha chegado a conhecer toda a organização que o dramaturgo deu ao tema nesta obra. Para o desenvolvimento da pesquisa nesse campo conceitual, seria interessante saber até que ponto Stanislavski pôde tratar o tema das "vivências cênicas" para além da polarização entre "o ator deve sentir o que representa" e "o ator não precisa senti-lo e/ou representa melhor quando não sente". Ao invés de apenas buscarmos "aplicar a psicologia à arte", caminho já muito comum no psicologismo dominante, estamos diante de um desafio distinto. Autores ligados ao teatro, à literatura, ao cinema, é que se apresentam como fontes para renovação dos recursos simbólicos da psicologia. Já disse Politzer: “A arte deve imitar a vida? A psicologia para fugir a uma tradição milenar, e retornar à vida, deveria imitar o teatro”.
Achilles
Umuarama, 26 de junho de 2009



